Creator, The | Criador, O

The Creator é um daqueles raros filmes de ficção científica que conseguem impressionar desde logo pelo universo que criam. Do ponto de vista conceptual e visual, Gareth Edwards recupera ideias familiares de obras como Blade Runner ou Alien: Covenant, mas fá-lo sem cair na simples imitação. Depois, temos ainda a fusão entre tecnologia avançada e as paisagens rurais do Sudeste Asiático, que resulta numa identidade visual marcante, onde arrozais, aldeias e templos convivem naturalmente com inteligência artificial, androides, arquitetura e armamento futurista. Essa opção estética confere ao filme uma personalidade muito própria e uma das direções artísticas mais conseguidas da ficção científica dos últimos anos. 

A realização é, aliás, exemplar. Edwards demonstra novamente uma extraordinária capacidade para construir escala e espetáculo, recorrendo a enquadramentos elegantes e a uma linguagem visual que privilegia a contemplação sem sacrificar o ritmo narrativo, recuperando também a  ambiência nostálgica e contemporizada do seu muito promissor Monsters

A isso junta-se ainda uma ambiência musical de grande qualidade, que em vários momentos surge de forma inesperada, acrescentando emoção e humanidade a um universo dominado por máquinas e guerra. 

Contudo, quando se ultrapassa a superfície visual do filme, começam a surgir falhas importantes no argumento. A narrativa assenta em premissas interessantes, mas desenvolve-as de forma simplista, recorrendo frequentemente a conveniências de guião e a decisões pouco convincentes das personagens. 

Há uma sensação constante de que o filme tem ideias para um grande clássico da ficção científica, mas não encontra a profundidade necessária para lhes dar verdadeira consistência dramática. Também do ponto de vista comercial é inevitável notar a ausência de um elenco de maior notoriedade. Embora as interpretações cumpram competentemente a sua função, falta uma presença capaz de conferir ao filme um peso adicional junto do grande público. Talvez por isso The Creator, tenha acabado por passar relativamente despercebido, apesar da qualidade técnica evidente. 

No final, fica a impressão de um filme muito maior na forma do que no conteúdo. Não reinventa a ficção científica nem resolve todas as fragilidades do seu enredo, mas confirma Gareth Edwards como um dos realizadores contemporâneos com maior talento para criar mundos credíveis e visualmente fascinantes. Só isso já faz do filme uma obra surpreendente e muito acima da média da produção atual.

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