Baskin

Depois de uma amena cavaqueira num restaurante, em que ficamos a saber que será normal na Turquia os homens perderem a virgindade com animais, quatro polícias do tipo somos os maiores, são chamados para uma ocorrência. Chegados a uma casa abandonada, transformam-se em pussys quando se deparam com uma seita canibal cujo líder parece um cruzamento entre um humano e um gato sphinx.

Baskin apresenta-se como um filme de terror turco com ambições artísticas e acaba por se assumir, sem pudor, como um desfile ritualizado de atrocidades. 

A realização é competente, por vezes até excelente no controlo de atmosfera, enquadramento e ritmo, mas tudo isso serve um propósito muito simples: construir um corredor de horrores surrealisto-gores, onde a narrativa é praticamente irrelevante perante a sucessão de imagens repugnantes. É cinema de impacto, não de conteúdo; de choque, não de pensamento.

A história dissolve-se rapidamente num catálogo de violência gratuita, onde a lógica interna pouco importa porque o objetivo é apenas escalar o grotesco. Um exemplo suficientemente elucidativo: a necessidade ritual de alguém fornicar com uma mulher com cabeça de esqueleto de cabra é antecedida pelo furo dos olhos do candidato com a faca a escorrer sangue, que é depois lambida por um homem-sphynx. Não é metáfora, não é simbolismo complexo, não é crítica social sofisticada, é apenas pornografia do grotesco, apresentada com solenidade pseudo-artística para parecer mais profunda do que realmente é.

O filme ganha, ainda assim, um elemento verdadeiramente perturbador em Mehmet Cerrahoglu, no seu primeiro trabalho cinematográfico, como figura central da seita. O seu aspeto físico, resultado de uma condição médica rara, dispensa qualquer caracterização e confere-lhe um carisma monstruoso natural, criando uma presença genuinamente inquietante que o filme, paradoxalmente, desperdiça ao reduzi-lo a mais uma peça no teatro da abjeção. Ele é talvez o único elemento verdadeiramente memorável num conjunto que confunde intensidade com profundidade.

No final, Baskin encaixa perfeitamente naquela categoria de filmes “paradigmáticos”: tecnicamente bem feitos, esteticamente extremos, mas narrativamente vazios, onde o horror se mistura com repulsa. É um filme que não quer ser compreendido, quer ser suportado. E consegue. Mas isso não é mérito artístico automático. A experiência resume-se a atravessar um túnel de imagens nojentas até ao fim, sem catarse, sem reflexão, sem recompensa. 

Entrada direta no top dos filmes que se veem uma vez e nunca mais.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Outras críticas