Cruising | A Caça

Porque é fisicamente parecido com as vítimas de um serial killer, um detective infiltra-se no meio gay underground de Nova Iorque com o objectivo de descobrir e atrair o assassino...

Cruising é uma descida crua e sem anestesia à cena gay nova-iorquina dos anos 70, filmado como se fosse um jardim zoológico noturno, de testosterona, couro, suor e pulsões, onde o deboche parece ser a regra. 

Friedkin entra nesse submundo com uma câmara quase clínica, observando uma fauna urbana onde abundam “Freddys Mercury” em modo desfile permanente, beijos performativos, corpos oleados e uma estética que parece saída diretamente do imaginário de Tom of Finland, transformando figurantes em caricaturas hipermasculinizadas de desejo e fetiche. 

Os clubes noturnos não são espaços de sociabilidade, são catedrais da pulsão, filmadas com distância suficiente para não moralizar, mas também sem romantizar, criando uma atmosfera pesada, densa, quase sufocante, que começa lentamente a contaminar o próprio detetive infiltrado, esse macho-man disfarçado que vai sendo engolido pela lógica do meio onde se infiltra.

A polémica do filme não foi acidental. Foi uma consequência direta da frontalidade com que Friedkin filma o sexo, a violência simbólica, a obsessão e a identidade como performance. Hoje, é praticamente impossível imaginar Cruising a estrear em salas comerciais convencionais sem ser imediatamente empurrado para um qualquer gueto com o carimbo de “conteúdo problemático”. 

A amputação de 40 minutos de material para evitar a classificação de filme adulto, não só mutilou a obra como lhe roubou coerência narrativa, deixando um final abrupto, frágil e pouco credível: o assassino invade a casa do detetive, percebe que está a ser observado, mas em vez de suspeitar de polícia, decide vê-lo como potencial engate e futura vítima. Uma lógica pouco lógica em termos de  psicologia criminal.

Mesmo assim, o filme sobrevive ao caos estrutural graças a uma atmosfera poderosa e a um Al Pacino sólido, contido, progressivamente contaminado pelo ambiente que habita, funcionando mais como corpo em transformação do que como herói clássico. 

Cruising não é um filme confortável, nem equilibrado, nem politicamente digerível. É um objeto estranho, excessivo, sujo, incompleto e profundamente incómodo. Mas é precisamente aí que reside a sua força: não como representação fiel, não como discurso moral, não como thriller clássico, mas como documento tóxico de uma época onde o cinema ainda se permitia atravessar zonas proibidas sem pedir desculpa, sem filtros e sem manual de boas maneiras.

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