Digger é um daqueles filmes que me fazem lembrar que não gosto de batatas fritas com sabores. Para mim, batatas fritas têm de saber apenas a batata.
A mesma lógica aplica-se ao cinema: se quero ver um musical, vou a uma sala de espetáculos; se quero ver uma peça, vou ao teatro; se quero ver um filme, vou ao cinema. Nada de misturas de sabores...
Ora, em Digger, somos obrigados a comer as batatas com sabor muito carregado de corantes e conservantes, até percebermos que, afinal, nem sequer estamos a comer: estamos a ver alguém comer.
A ideia, admito, podia ser interessante: uma peça de teatro dentro de um filme, uma espécie de exercício de metalinguagem que poderia resultar num objeto desconcertante e original. Mas não. O resultado é apenas patético, histérico e insuportavelmente teatral.
Tom Cruise é apenas Tom Cruise a fazer de velho, uma experiência que rapidamente ultrapassa o domínio da estranheza e entra no da penitência. Ver John Goodman no registo de presidente é simplesmente penoso. Tudo parece forçado, artificialmente excêntrico e desesperadamente empenhado em demonstrar que estamos perante algo muito inteligente. E talvez seja precisamente esse o problema: Digger é um filme excessivamente consciente da sua própria inteligência, embrulhando uma possível crítica social numa camada tão espessa de intelectualismo que a mensagem acaba soterrada pelo próprio dispositivo.
A determinada altura, a vontade de sair da sala deixa de ser uma reacção e passa a ser um objectivo perfeitamente legítimo. Não sentia esta vontade desde Barbie, outro daqueles filmes que parecem determinados a testar os limites da resistência humana.
Digger consegue roçar o insuportável, não por falta de ideias, mas pelo modo como decide apresentá-las. Até o casting parece concebido para nos convencer de que estamos perante um acontecimento cinematográfico, quando na realidade estamos perante uma má peça de teatro que, por algum equívoco administrativo, foi parar ao cinema. A ideia podia ser boa. O embrulho é que sabe demasiado a plástico.

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