Odyssey, The

Odisseia sobressai, desde logo, pela sua estética sonora, talvez um dos seus elementos mais conseguidos. Visualmente, o resultado é mais ambivalente. Não existe propriamente uma assinatura visual e há momentos em que a imagem parece ficar aquém da grandiosidade que seria expectável, embora essa aparente limitação ganhe outro significado quando percebemos que o filme recorre exclusivamente a efeitos práticos. 
Num cinema cada vez mais dominado pelo digital, há aqui um mérito evidente na opção por construir fisicamente aquilo que vemos, mesmo quando o resultado não atinge sempre a espectacularidade habitual das grandes produções. O reverso da medalha: em inúmeros momentos parece que conseguimos facilmente imaginar que há uma equipa de filmagem atrás da câmara...
A adaptação é particularmente fiel ao texto de Homero, percorrendo os principais episódios e ideias da Odisseia sem se perder em desvios desnecessários. 
No centro está Matt Damon, no papel de Ulisses, que acaba por se tornar a grande figura do filme. É possível imaginar outros atores nos diferentes papéis do filme, mas Damon encaixa surpreendentemente bem nesta versão do herói, conseguindo transmitir simultaneamente a astúcia, a resistência e o desgaste de um homem que passou demasiado tempo longe de casa. 
Apesar das quase três horas de duração, o filme passa com uma rapidez pouco habitual para uma produção desta dimensão, sinal de que Nolan soube manter a narrativa em movimento. Curiosamente, talvez seja precisamente por isso que Odisseia acaba por ser um dos filmes menos “Nolan” de Nolan. Estão lá os puzzles narrativos, estruturas temporais algo complexas ou conceitos destinados a desafiar o espectador, mas a história acaba por ser relativamente linear e o essencial está na jornada do protagonista. 
E talvez seja essa simplicidade que permite ao filme chegar ao seu destino com maior eficácia, com um final particularmente emotivo, que beneficia enormemente da tal estética sonora, que acaba por desempenhar um papel decisivo na construção da emoção. 
Não será necessariamente o Nolan mais cerebral, mas poderá ser um dos seus filmes mais humanos.

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