Mars Attacks! | Marte Ataca!

Vindos nos seus discos voadores, os marcianos chegam à Terra e começam rapidamente a fazer uma limpeza étnica planetária. No meio do caos, descobre-se que a defesa da Terra não depende de militares, de ciência ou estratégia, mas de uma música irritante que derrete os cérebros dos alienígenas.

Mars Attacks! é mais um daqueles filmes delirantes de Tim Burton que, à data da estreia, surgiram como uma lufada de ar fresco, num período em que o realizador parecia viver uma fase de imaginação inesgotável, criatividade sem filtros e identidade autoral fortíssima. 

Tal como aconteceu com Batman, também aqui Burton parecia capaz de pegar num universo pré-existente (o cinema sci-fi dos anos 50) e transformá-lo em algo pessoal, excêntrico e visualmente distinto. No entanto, visto hoje, Mars Attacks! envelheceu mal, e não tanto por falta de originalidade, mas por estar profundamente contaminado pelo seu próprio tempo.

Contando com uma infidável (e parece-me que nunca antes reunida) constelação de estrelas (ou futuras estrelas) de Hollywood, o filme foi demasiadamente contaminado pelos anos 90: o ritmo, o humor, os clichés, as tiradas ingénuas, os arquétipos e até o tipo de sátira tornam-se hoje mais datados do que nostálgicos. 

Aquilo que na altura funcionava como ironia evidente e paródia assumida, os estereótipos, o exagero, as piadas óbvias, era facilmente perdoado porque parecia consciente, fresco e divertido. Hoje essas mesmas escolhas raramente conseguem provocar o mesmo efeito, parecendo muitas vezes mais a ingenuidade pré-fabricada do que sátira eficaz.

Não se pode propriamente afirmar que exista uma interpretação verdadeiramente marcante em Mars Attacks!. O elenco é de facto vasto e impressionante nos créditos iniciais, mas raramente eficaz no resultado. Muitos parecem ter sido escolhidos apenas porque eram famosos e não tanto porque eram os ideais para as personagens. A maioria dos atores limita-se a cumprir funções narrativas, funcionando mais como peças decorativas dentro da sátira do que como personagens com verdadeira presença dramática. Nesse contexto, há atuações que se tornam francamente problemáticas e Jack Nicholson é o caso mais evidente. A sua dupla interpretação cabotina, sobretudo no papel de Presidente, resvala para o exagero caricato autocontrolado, dando a sensação constante de que está mais a cumprir contrato do que a construir uma personagem, como se cada cena fosse um exercício de esforço mínimo disfarçado de excentricidade.

O resultado é uma galeria de figuras que raramente ganham densidade ou credibilidade, funcionando antes como caricaturas ocas ao serviço do tom burlesco do filme. Mesmo quando a intenção é a paródia, falta consistência interpretativa e direçã de atores que dê coesão ao conjunto. Em vez de um elenco a elevar o filme, o que se sente é um conjunto de nomes sonantes a orbitarem uma ideia central sem nunca a fortalecer verdadeiramente, contribuindo para essa sensação de filme-objeto, mais construído em torno de conceito, estética e referências "Burtonianas" do que propriamente de personagens ou interpretações memoráveis.

Ainda assim, Mars Attacks! continua a impressionar em aspetos concretos: os efeitos especiais, o design dos marcianos, a estética exagerada e, sobretudo, a forma como eles comunicam, permanecem memoráveis e icónicos. 

Se na altura o filme se assumia como uma homenagem ao cinema de ficção científica dos anos 50 (discos voadores, cientistas ignorados, políticos ingénuos, histeria coletiva e o medo do “outro” como metáfora social), quarenta anos depois do período que homenageava, e agora quase três décadas após a sua estreia, é precisamente isso que resta: uma homenagem cómica, estética, referencial. Menos um filme vivo e provocador, mais um objeto de época, interessante como cápsula temporal de um momento específico e meio desviante da carreira de Burton.

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