O resultado é uma galeria de figuras que raramente ganham densidade ou credibilidade, funcionando antes como caricaturas ocas ao serviço do tom burlesco do filme. Mesmo quando a intenção é a paródia, falta consistência interpretativa e direçã de atores que dê coesão ao conjunto. Em vez de um elenco a elevar o filme, o que se sente é um conjunto de nomes sonantes a orbitarem uma ideia central sem nunca a fortalecer verdadeiramente, contribuindo para essa sensação de filme-objeto, mais construído em torno de conceito, estética e referências "Burtonianas" do que propriamente de personagens ou interpretações memoráveis.
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Mars Attacks! | Marte Ataca! |
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Fog, The | O nevoeiro |
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They Live | Eles vivem |
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Hunter Prey |
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Naboer | Next Door | Algumas portas nunca deviam ser abertas |
A viagem ao cérebro humano, a mentes em colapso, é sempre fascinante. Aqui estamos perante um mecanismo de defesa, um labirinto psicológico onde a realidade se molda às necessidades emocionais do protagonista, funcionando como uma descida ao inferno do sentimento de culpa, mostrando como a mente é capaz de construir narrativas alternativas, fantasias e distorções para sobreviver ao trauma.
Mais do que um simples thriller erótico ou psicológico, Naboer interessa-se pelo modo como o cérebro organiza o caos interior, criando inimigos, desejos e situações extremas como forma de enfrentar ou esconder aquilo que não consegue aceitar.
É um cinema inquietante, que desconforta precisamente porque nunca deixa claro onde termina a realidade e começa o mecanismo de autopreservação, transformando a culpa num espaço físico e mental do qual é impossível sair ileso.
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Eojjeolsuga eobsda | No Other Choice | A única saída |
Por baixo desse jogo narrativo está um tema pesado e muito concreto: o desemprego como drama social, particularmente relevante em certos contextos orientais, onde a perda de trabalho significa não apenas instabilidade económica, mas quebra de identidade, estatuto e dignidade.
O filme aborda esta realidade com um tom ambíguo, cruzando momentos quase cómicos com explosões de violência súbita, sem nunca cair propriamente no humor negro, mas também sem procurar conforto moral.
A personagem principal surge mais como caricatura do homem esmagado pelo sistema do que como herói ou vilão clássico, e é precisamente nessa distorção que o filme encontra parte da sua força. Curiosamente, é a personagem mais jovem, a filha, que, funciona como contraponto silencioso num mundo de adultos perdidos, onde a maturidade parece ser o primeiro emprego a desaparecer.
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Watchers, The | Eles veem tudo |
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Overlord |
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Separation, A | Uma Separação |
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Ugly Stepsister, The - A Meia-irmã feia |
O filme leva tão a sério esta premissa que acaba por roçar o grotesco, transformando o conto de fadas numa espécie de manual existencial sobre auto-ódio estético, onde cada sacrifício é apresentado como escolha pessoal e coerção social, e onde a pergunta central é “até que ponto é razoável destruir-se para merecer existir?”
Antes de drama e terror, o IMDB classifica-o logo como comédia. Será como chamar “leveza” a uma pedra amarrada ao pescoço. Será uma comédia mesmo muito negra, de luto, porque o filme entrega sobretudo drama, desconforto e uma sensação persistente de que estamos a espreitar algo que não quer propriamente ser visto.
A história não engana: é a Cinderela revisitada, mas despida de varinha mágica e carregada de uma lucidez pouco simpática. A fábula clássica é passada a pente-fino com o olhar contemporâneo, aquele que já não acredita em finais felizes sem fatura associada. O centro emocional não é Cinderela, mas a meia-irmã, figura secundária que aqui ganha carne, insegurança e uma inveja que não é vilã, é humana. Acompanhamos de perto o seu sentimento de inferioridade, essa comparação permanente e corrosiva que o espelho social insiste em repetir.
O filme funciona como metáfora pouco subtil, mas eficaz, dos sacrifícios que muitas mulheres continuam dispostas a fazer em nome da beleza, da aceitação e da promessa de ascensão social. Sacrifícios físicos, psicológicos, identitários. Tudo embalado numa estética que oscila entre o estilizado e o perturbador.
O resultado é um objeto estranho. Não estranho no sentido “ousado”, mas estranho como algo que nos fica atravessado. Não diverte, não consola, não oferece catarse. Observa. Julga pouco, mas expõe muito. E deixa o espectador com a incómoda sensação de que, afinal, o conto de fadas sempre foi uma história de dor, só que antes vinha coberta de açúcar.
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The Batman : Quando a DC descobriu os filtros do Instagram |
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Popeye |
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Substance, The | Substâcia, A |
À beira de uma depressão, a atriz decide experimentar uma "substância" que promete transformá-la na "sua melhor versão"!
Um filme nostálgico, não pela história, mas por uma espécie de resgate do passado, sobre vários aspetos. Não é só a atriz Demi Moore que é resgatada de uma suposta travessia no deserto em que se encontrava, depois de se ter tornado numa atriz mainstream e protagonizado alguns dos mais famosos blockbusters dos anos 90. Renasce agora, supostamente para o papel da sua vida, como já li, coisa que considero um enorme exagero.
A própria Moore parece que nunca saiu daqueles anos 90. Se consegue apresentar uma atuação sólida, quando são os diálogos escassos, os silêncios e os close ups que dominam a narrativa durante grande parte do filme, a certa altura o guião brinda-a com mais abundantes deixas, onde ela claramente se espalha ao comprido. Aqui refiro-me concretamente à sequência onde a vemos a cozinhar, enquanto pragueja contra a "sua melhor versão", situação onde tem uma atuação caricatural, ao jeito dos anos 80 ou 90. Talvez se explique assim a sua travessia...
Depois é o cinema de body horror que é revisitado, vindo-nos à memória o cinema de Cronenberg, aqui catapultado para um outro nível, e ainda, os efeitos especiais, de caracterização, notando-se a ausência de efeitos digitais, voltando-se ao efeitos old school que víamos precisamente no cinema daquele realizador. Mas também em filmes como o "The Thing", de John Carpenter, e no profícuo cinema de terror dos anos 80, onde pontificavam realizadores de culto como Stuart Gordon (Re-animator, From Beyond) ou Clive Barker (Hellraiser), um tipo de cinema onde caberia na perfeição esta história da "substância", que tinha tudo para, naqueles tempos, naturalmente dar um excelente filme de série B.
E o que a realizadora da "substância" fez, de forma brilhante, foi pegar numa ideia delirante e transformá-la num filme eclético, que vai buscar também muita da sua eficácia à proximidade que temos com a Demi Moore e também, afinal, à proximidade que própria a atriz tem com a personagem, resultando numa reação química que reforça o nosso desconforto. Ela não é uma qualquer atriz semianónima, como as que participavam nos filmes dos mestres do terror das décadas de 80 e 90.
Por tudo isto, não podemos deixar de sentir alguma sensação de deja vu, quando assistimos a este filme, porque tudo nos remete para o passado.
É pena que a parte final do filme enverede por um exagero que era perfeitamente dispensável. O filme teve várias oportunidades para terminar de uma forma limpa, literalmente. Com muito menos sangue.
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Joker: Folie à Deux |
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Deep House, The |



